Papel e celulose, pneus e produtos químicos estão entre os segmentos mais expostos. A entidade defende negociação diplomática e medidas de apoio às empresas afetadas.

Aproximadamente US$ 273,1 milhões em produtos exportados pela Bahia podem ser atingidos pela nova tarifa de 25% anunciada pelos Estados Unidos para mercadorias brasileiras. A estimativa foi divulgada pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia, a FIEB, e corresponde a 33,2% das vendas baianas destinadas ao mercado norte-americano em 2025.

A nova política tarifária dos Estados Unidos pode afetar uma parcela importante das exportações da Bahia. Nota técnica da FIEB estima que US$ 273,1 milhões em produtos baianos ficarão sujeitos à sobretaxa.

O cálculo utiliza como referência as exportações realizadas em 2025, quando a Bahia vendeu US$ 821,4 milhões em mercadorias para os Estados Unidos. O valor potencialmente atingido representa 33,2% desse total.

Celulose, pneus e produtos químicos estão entre os mais expostos

De acordo com a análise da FIEB, os principais impactos devem se concentrar nas indústrias de papel e celulose, produtos de borracha e plástico, especialmente pneus, e produtos químicos, com destaque para itens petroquímicos básicos.

A celulose solúvel aparece como uma das maiores preocupações. O produto alcançou aproximadamente US$ 96,2 milhões em exportações baianas em 2025 e passou a integrar a relação de mercadorias sujeitas à nova cobrança. Outros tipos de celulose permaneceram entre as exceções.

Diferentemente da matéria-prima tradicionalmente empregada na fabricação de papel, a celulose solúvel possui maior grau de pureza e pode ser utilizada pelas indústrias têxtil, farmacêutica e de cosméticos.

Por causa do peso do produto na pauta exportadora, a aplicação da tarifa pode reduzir a competitividade da produção baiana no mercado norte-americano.

Também estão entre os produtos expostos determinados tipos de pneus, substâncias químicas, sucos de frutas, calçados, nozes sem casca e uvas frescas.

Alguns desses itens possuem participação menor no valor total exportado, mas podem ter importância relevante para empresas e cadeias produtivas específicas.

Estados Unidos perderam participação nas exportações da Bahia

Os Estados Unidos ocupam atualmente a quarta posição entre os principais destinos dos produtos baianos.

Segundo a FIEB, o país recebia 35% das exportações da Bahia em 2001. Em 2025, essa participação havia recuado para 7,1%, com projeção de nova queda para 6,1% em 2026.

Dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia também mostram uma redução recente das vendas ao mercado norte-americano. Em maio de 2026, as exportações baianas para os Estados Unidos caíram 27,8% em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

A nova tarifa pode aprofundar esse movimento ao tornar os produtos da Bahia mais caros para os compradores dos Estados Unidos.

Dependendo do setor, as empresas podem precisar reduzir margens de lucro, renegociar contratos ou procurar outros mercados para manter o volume de vendas.

Impacto geral pode ser limitado, mas forte em setores específicos

A avaliação apresentada pela FIEB é de que o efeito sobre toda a economia baiana tende a ser limitado quando analisado em relação ao Produto Interno Bruto estadual.

Entretanto, a perda pode ser significativa para empresas e atividades diretamente dependentes das exportações atingidas.

A entidade estima que pelo menos 245 produtos baianos poderão ser alcançados pela sobretaxa. O levantamento também registra a existência de 157 itens exportados que permaneceram isentos.

Embora o impacto possa ser pequeno no conjunto da economia baiana, os efeitos podem ser relevantes para empresas e setores diretamente atingidos.

Além da perda de competitividade no mercado norte-americano, a medida pode provocar redução da produção, adiamento de investimentos e pressão sobre postos de trabalho vinculados às cadeias exportadoras.

FIEB pede negociação e medidas de apoio

Diante do novo cenário, a FIEB defende que as negociações entre Brasil e Estados Unidos priorizem a retirada da celulose solúvel, dos pneumáticos e dos produtos químicos da lista sujeita à tarifa adicional.

A federação também considera necessária a adoção de medidas de apoio aos setores atingidos, com o objetivo de reduzir perdas, preservar a competitividade e evitar consequências sobre investimentos, produção e empregos.

Em relação a uma possível resposta brasileira por meio da Lei da Reciprocidade Econômica, a FIEB recomenda cautela.

Para a entidade, qualquer reação deve considerar os impactos sobre cada setor e evitar o encarecimento de insumos e bens de capital utilizados pela própria indústria nacional.

Possíveis efeitos regionais ainda precisam ser apurados

A nota técnica não detalha impactos diretos sobre os nove municípios do Piemonte Norte do Itapicuru.

Por isso, ainda não é possível afirmar que empresas de Andorinha, Antônio Gonçalves, Caldeirão Grande, Campo Formoso, Filadélfia, Jaguarari, Pindobaçu, Ponto Novo ou Senhor do Bonfim serão diretamente atingidas.

Os reflexos indiretos, porém, podem aparecer caso a medida afete a atividade industrial da Bahia, os investimentos, o mercado de trabalho, os custos de transporte ou a demanda por fornecedores.

A dimensão regional dependerá da relação das empresas locais com as cadeias produtivas incluídas na nova tarifa.

O Portal do Piemonte buscará informações junto a entidades empresariais, representantes dos setores produtivos e órgãos públicos para identificar possíveis efeitos sobre a economia regional.

Acompanhamento da medida

A FIEB informou que continuará acompanhando os desdobramentos por meio do Observatório da Indústria da Bahia e de suas equipes técnicas.

A entidade também mantém contato com empresas, sindicatos industriais, a Confederação Nacional da Indústria e órgãos governamentais.

As informações reunidas deverão subsidiar negociações e propostas destinadas a reduzir os impactos da política tarifária sobre a produção baiana.

Fontes consultadas

A matéria foi produzida com base em nota técnica e informações divulgadas pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia, em dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia e em reportagens sobre os impactos da nova política tarifária nas exportações baianas.