Você conhece os significados de “ultracrepidário”, “sofômano” e “dogmático”? Já ouviu falar no chamado efeito Dunning-Kruger?

Esses conceitos ajudam a refletir sobre um problema recorrente no debate público: opiniões apresentadas com grande convicção, mas sem dados suficientes para sustentar conclusões abrangentes.

Nos últimos dias, uma publicação divulgada nas redes sociais reuniu imagens de três estabelecimentos fechados e construiu, a partir delas, uma interpretação sobre a situação do comércio de Senhor do Bonfim.

O encerramento de uma empresa não deve ser tratado com indiferença. Cada porta fechada pode representar perda de renda, postos de trabalho, investimentos e histórias construídas ao longo dos anos.

Entretanto, fotografias isoladas não substituem uma análise econômica baseada em contexto, dados oficiais, comparação histórica e conhecimento sobre a realidade de cada empreendimento.

Brasil registrou mais de 942 mil empresas fechadas

Entre maio e agosto de 2025, o Brasil registrou o fechamento de 942.049 empresas, segundo o Mapa de Empresas, levantamento oficial do Governo Federal.

No mesmo período, foram abertas 1.668.753 empresas. O número de novos negócios caiu 9% em comparação com o primeiro quadrimestre de 2025. As baixas empresariais também recuaram 4,5%.

Apesar do elevado número de encerramentos, o país terminou o segundo quadrimestre com saldo positivo de 726.704 empresas. Ao final do período, havia 24.213.445 empresas ativas no Brasil.

Os números mostram que abertura e fechamento de negócios fazem parte de uma dinâmica mais ampla. Por isso, fachadas desocupadas podem servir como ponto de partida para uma apuração, mas não como prova suficiente de uma crise econômica generalizada.

Inadimplência atingiu milhões de empresas

Em fevereiro de 2025, o Brasil alcançou o então recorde de 7,2 milhões de empresas inadimplentes, quantidade equivalente a 31,6% dos negócios existentes no país, segundo a Serasa Experian.

As dívidas negativadas dessas empresas ultrapassavam R$ 164,2 bilhões. O levantamento evidencia um ambiente de dificuldades financeiras que alcançava negócios de diferentes setores e regiões.

Juros, aluguel, tributos, salários, energia, fornecedores, acesso restrito ao crédito e redução do consumo estão entre os fatores capazes de pressionar o caixa das empresas, especialmente dos pequenos negócios.

Dados consolidados posteriormente apontaram que 2.466 empresas estiveram envolvidas em processos de recuperação judicial durante 2025. O resultado representou crescimento de 13% em relação a 2024 e o maior número da série apresentada pela Serasa Experian com a metodologia atualizada.

Isso não significa que toda empresa encerrada tenha sido vítima da conjuntura nacional. Significa que qualquer análise responsável precisa considerar o ambiente econômico antes de atribuir o fechamento de alguns estabelecimentos a um problema exclusivamente municipal.

Os três estabelecimentos não podem ser tratados como um único caso

Os três estabelecimentos apresentados na publicação possuem trajetórias, estruturas de custos e decisões empresariais próprias. Por essa razão, não devem ser automaticamente reunidos como se todos tivessem encerrado as atividades pelo mesmo motivo.

Informações preliminares encaminhadas ao Portal do Piemonte indicam que uma das operações teria sido instalada com caráter temporário. Outra empresa já teria comunicado previamente o encerramento das atividades. No terceiro caso, os custos de ocupação do imóvel teriam peso relevante nas despesas mensais.

Essas informações ainda dependem de confirmação documental ou de posicionamentos formais dos responsáveis. Até que isso aconteça, não podem ser apresentadas como fatos definitivamente comprovados.

A redação buscou preservar a distinção entre informações verificadas e relatos recebidos durante a apuração. O espaço permanece aberto para que os empresários expliquem os motivos de suas decisões e apresentem documentos ou esclarecimentos.

Saldo empresarial do município exige comprovação oficial

O material encaminhado à redação também afirma que Senhor do Bonfim teria encerrado 2025 com saldo positivo de 503 empresas, considerando a diferença entre aberturas e baixas de registros empresariais.

O saldo positivo ajuda a demonstrar que o fechamento dos três estabelecimentos não representou, sozinho, uma redução generalizada na quantidade de empresas existentes no município.

Ainda assim, a quantidade de CNPJs não deve ser usada como único indicador. A abertura de uma empresa não significa obrigatoriamente geração de empregos, aumento do faturamento ou fortalecimento do comércio. Da mesma forma, uma baixa empresarial isolada não comprova que toda a economia local esteja em crise.

Imagens provocam emoção mas não encerram o debate

É legítimo lamentar o encerramento de uma empresa. Também é legítimo cobrar políticas de desenvolvimento econômico, qualificação profissional, infraestrutura, acesso ao crédito e estímulo ao comércio local.

O problema surge quando três casos distintos são apresentados como prova definitiva da realidade econômica de toda uma cidade.

Uma análise consistente precisa verificar o histórico dos estabelecimentos, ouvir os empresários, consultar entidades representativas, examinar registros oficiais e comparar indicadores ao longo do tempo.

Sem esse trabalho, uma publicação pode produzir uma interpretação emocional, mas não oferece elementos suficientes para explicar a complexidade da economia de Senhor do Bonfim.

O que significam os termos apresentados no início?

“Ultracrepidário” é um termo usado para caracterizar quem opina ou aconselha sobre assuntos que não conhece suficientemente.

“Sofômano” descreve aquele que procura aparentar sabedoria ou conhecimento que não possui.

“Dogmático” pode caracterizar quem apresenta determinada opinião ou doutrina de maneira rígida, sem admitir contestação ou interpretações diferentes.

O efeito Dunning-Kruger está associado a erros de autoavaliação. O estudo original, publicado em 1999 pelos pesquisadores Justin Kruger e David Dunning, examinou como dificuldades para reconhecer a própria falta de habilidade podem levar a avaliações exageradas da própria competência.

Essas expressões não estão sendo utilizadas como diagnóstico psicológico nem como ataque pessoal contra o autor de qualquer publicação. Elas servem como reflexão sobre a responsabilidade necessária ao apresentar opiniões econômicas como se fossem conclusões técnicas.

Antes de transformar uma impressão em diagnóstico sobre a economia de uma cidade, é necessário pesquisar os dados, compreender o modelo de cada empresa e ouvir as partes envolvidas.

Três fachadas fechadas podem produzir uma imagem forte e despertar preocupação. Sozinhas, porém, não representam toda a realidade econômica de Senhor do Bonfim.

Direito de resposta

O Portal do Piemonte mantém espaço aberto para que os responsáveis pela publicação mencionada, os proprietários dos estabelecimentos citados e as entidades representativas do comércio apresentem informações, correções ou posicionamentos sobre os fatos abordados nesta análise.

Fontes consultadas

A análise considerou o Mapa de Empresas do Governo Federal, referente ao segundo quadrimestre de 2025; o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian, relativo a fevereiro de 2025; e o levantamento de recuperações judiciais da Serasa Experian referente a 2025.