O senador Jaques Wagner tentou concluir o registro da venda de um terreno avaliado em R$ 15,8 milhões um dia depois de ter sido alvo de uma operação da Polícia Federal no âmbito das investigações sobre o Banco Master.

De acordo com a documentação citada nas reportagens, a escritura foi apresentada em 19 de junho de 2026 ao 1º Ofício de Registro de Imóveis de Camaçari. A transferência, entretanto, não foi efetivada porque o cartório recebeu uma ordem de indisponibilidade dos bens do parlamentar, assinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.

O terreno possui aproximadamente 51 mil metros quadrados e estaria situado na Região Metropolitana de Salvador. Segundo as informações publicadas, o imóvel foi adquirido por Wagner em 2000 e negociado com empresas do setor de incorporação imobiliária. O senador teria recebido R$ 2 milhões à vista como parte do pagamento.

Reportagens locais informaram que a área integra um conjunto de terrenos adquiridos para um projeto ligado ao Esporte Clube Bahia. Em resposta ao Estadão, a comunicação do clube afirmou que foram compradas áreas de cinco proprietários e que o imóvel pertencente ao senador representa cerca de 4% da área total negociada. O clube também declarou que o bloqueio não deverá comprometer o andamento do projeto.

A tentativa de registro ocorreu após a nona fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça e deflagrada em 18 de junho de 2026. A decisão determinou medidas cautelares e buscas em endereços relacionados ao senador e a outros investigados na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal.

A investigação apura a relação entre Jaques Wagner e o empresário Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master. Segundo a Polícia Federal, há suspeitas de que o parlamentar tenha recebido vantagens indevidas em troca de possível atuação política favorável a interesses ligados ao grupo financeiro. Essas suspeitas ainda estão sob investigação e não representam uma conclusão judicial.

Um dos principais pontos investigados envolve um apartamento de alto padrão avaliado entre R$ 2,4 milhões e R$ 2,5 milhões. A Polícia Federal apura se o imóvel teria sido adquirido por Augusto Lima para beneficiar a filha do senador. Wagner afirma que pediu ao empresário que comprasse o apartamento para que posteriormente pudesse recomprá-lo e nega que o imóvel tenha integrado seu patrimônio.

A apuração também menciona mensagens de novembro de 2024 nas quais o senador teria encaminhado ao empresário informações sobre o imóvel, incluindo a unidade, o valor e o contato de um representante da construtora. Para a Polícia Federal, o conjunto de diálogos e movimentações financeiras precisa ser esclarecido.

Além do terreno de R$ 15,8 milhões, o bloqueio atingiu o registro da venda de um apartamento do senador em Salvador, negociado por R$ 10 milhões. O pedido referente a esse imóvel havia sido protocolado em 10 de junho, oito dias antes da operação, mas o registro ainda estava em processamento quando a determinação do Supremo chegou ao cartório.

O apartamento teria sido comprado pelo prefeito de Conceição do Coité, Marcelo Passos, do União Brasil. Segundo declaração atribuída ao comprador, o contrato foi firmado em dezembro de 2025, os pagamentos ocorreram diretamente na conta de Jaques Wagner até abril de 2026 e a escritura foi lavrada em maio. O prefeito afirmou que a negociação ocorreu dentro da legalidade.

Conforme as reportagens, Wagner já teria recebido ao menos R$ 12 milhões referentes às duas negociações imobiliárias, apesar de os registros de transferência terem sido impedidos pela ordem judicial. O recebimento de valores antes do registro definitivo não comprova, isoladamente, qualquer ilegalidade e deverá ser analisado no contexto dos contratos e da investigação.

Procurada pelos veículos que divulgaram o caso, a defesa de Jaques Wagner negou irregularidades e afirmou que os negócios são públicos e possuem registros oficiais.

“A defesa do senador Jaques Wagner esclarece que ele não se manifestará sobre condutas que não sejam sobre sua campanha eleitoral. Todos os demais assuntos estão e continuarão sendo tratados judicialmente. Todos os fatos apurados são públicos e com registros públicos. Não há mínima irregularidade e nem nada a esconder”, declarou o advogado Pablo Domingues.

Em manifestação anterior sobre a operação, o senador afirmou que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado formalmente em processo relacionado aos fatos investigados. Ele também negou ter atuado em favor do Banco Master ou de qualquer outra instituição financeira.

A defesa do empresário Augusto Lima também negou a existência de atos ilícitos. Em nota divulgada após a operação, afirmou que o empresário sempre atuou dentro da lei, com transparência e observância das normas do sistema financeiro e da administração pública.

O bloqueio determinado pelo STF é uma medida cautelar destinada a preservar o patrimônio enquanto a investigação avança. A indisponibilidade impede a transferência dos bens, mas não representa confisco definitivo nem comprovação de culpa.

Até o momento, não há informação pública de que Jaques Wagner tenha sido denunciado pelo Ministério Público Federal ou condenado pelos fatos apurados nessa fase da Operação Compliance Zero.

O caso deverá seguir sob análise da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal, por envolver um senador no exercício do mandato.

O Portal do Piemonte mantém espaço aberto para novas manifestações da defesa de Jaques Wagner, dos compradores dos imóveis, das empresas envolvidas nas negociações, do Esporte Clube Bahia e das autoridades responsáveis pela investigação.

Contexto da investigação

Jaques Wagner exerce mandato de senador pela Bahia no período de 2019 a 2027. O parlamentar foi governador do estado por dois mandatos e ocupou ministérios nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

A Operação Compliance Zero investiga suspeitas de fraudes financeiras, corrupção e pagamentos de vantagens indevidas relacionados ao Banco Master e a pessoas ligadas à instituição. No caso do senador, a apuração concentra-se em sua relação com Augusto Lima e em possíveis benefícios imobiliários e financeiros.

Após ser alvo da operação, Wagner deixou a liderança do governo federal no Senado. O parlamentar, no entanto, continuou exercendo o mandato e reiterou que confia no esclarecimento dos fatos.