Quatro anos depois de uma eleição decidida no segundo turno, a Bahia volta a ter Jerônimo Rodrigues (PT) e ACM Neto (União Brasil) no centro da disputa pelo governo estadual. Os nomes são conhecidos, mas o cenário de 2026 está longe de ser uma simples repetição de 2022. Jerônimo agora concorre carregando o peso e os ativos de quase quatro anos de governo; Neto retorna como desafiante; João Roma, que tirou mais de 9% dos votos no primeiro turno de 2022, mudou de cargo e passou a integrar o campo oposicionista como nome ao Senado.

No Piemonte Norte do Itapicuru, os dados oficiais disponíveis no especial eleitoral do Portal do Piemonte ajudam a enxergar outra característica importante: não existe um comportamento eleitoral único na região. Municípios vizinhos votaram de formas bastante diferentes para governador, e o eleitor frequentemente separou a escolha para o Executivo da votação para deputados. A base de 2022, portanto, serve mais como mapa das forças políticas existentes do que como previsão do que acontecerá em outubro.

Há ainda uma ressalva necessária. Em 8 de agosto, as candidaturas de 2026 estão dentro do processo formal de registro. As convenções terminaram em 5 de agosto, mas partidos, federações e coligações têm até 15 de agosto, às 19h, para requerer os registros. O conjunto de dados “Candidatos 2026” do TSE é alimentado pelos sistemas CAND, CANDex e DivulgaCand e tem atualização diária. Assim, homologação partidária e candidatura definitivamente deferida pela Justiça Eleitoral não são a mesma coisa.

O reencontro de Jerônimo e ACM Neto

Em 2022, Jerônimo chegou às urnas como candidato governista ainda pouco conhecido por parte do eleitorado. Terminou o primeiro turno com 49,45% dos votos válidos, contra 40,80% de ACM Neto. João Roma ficou em terceiro, com 9,08%. No segundo turno, Jerônimo venceu e assumiu o Governo da Bahia.

Em 2026, a fotografia é diferente. ACM Neto teve sua candidatura ao governo homologada em convenção em 22 de julho. A chapa oposicionista apresentou Zé Cocá, do PP, para vice, enquanto Angelo Coronel, do Republicanos, e João Roma, do PL, disputam as vagas ao Senado.

Jerônimo, por sua vez, busca a reeleição. A composição construída pela base governista reúne novamente Geraldo Júnior na vice e coloca dois ex-governadores, Jaques Wagner e Rui Costa, na corrida ao Senado. O desenho concentra nomes com longa presença no interior baiano e associa diretamente a eleição estadual ao desempenho e à avaliação dos governos estadual e federal.

Uma pesquisa Genial/Quaest divulgada em 29 de julho reforça a ideia de disputa aberta: ACM Neto apareceu com 39% e Jerônimo com 38% em um cenário de primeiro turno, situação de empate técnico dentro da margem de erro. O levantamento, registrado sob os números BR-05856/2026 e BA-02331/2026, ouviu 1.200 eleitores baianos entre 23 e 27 de julho. Pesquisa, porém, é fotografia do momento, não previsão do resultado.

João Roma muda de lugar no tabuleiro

Uma das diferenças mais importantes entre as duas eleições é João Roma.

Em 2022, Roma disputou diretamente o Governo da Bahia e recebeu 738.311 votos, ou 9,08% dos válidos. Agora, ele não concorre contra ACM Neto ao governo: foi incorporado à chapa oposicionista e busca uma cadeira no Senado.

Politicamente, isso reduz uma divisão existente no campo da oposição em 2022. Mas seria incorreto transformar os 9,08% de Roma em uma soma automática à votação passada de ACM Neto. O cargo é diferente, as alianças são outras e o eleitor baiano já demonstrou capacidade de combinar votos de grupos políticos distintos.

Há, inclusive, uma particularidade em 2026: a aliança estadual não significa unidade completa na disputa presidencial. Enquanto ACM Neto declarou apoio presidencial a Ronaldo Caiado, João Roma e outras lideranças do mesmo palanque estadual se aproximam da candidatura de Flávio Bolsonaro. Isso poderá produzir campanhas com discursos nacionais diferentes dentro de uma mesma coligação baiana.

No Piemonte, 2022 mostrou que o voto não segue uma única direção

Os números municipais ajudam a desmontar a ideia de um Piemonte eleitoralmente homogêneo.

Em Andorinha, Jerônimo terminou o segundo turno de 2022 com 80,01% dos votos válidos para governador. Em Campo Formoso, chegou a 58,31%. Já em Senhor do Bonfim, o resultado foi invertido: Jerônimo recebeu 47,38%, deixando ACM Neto com a maioria dos votos válidos.

Campo Formoso oferece talvez o exemplo mais claro de como a política local e a estadual podem seguir caminhos distintos. No primeiro turno, Jerônimo venceu a votação para governador no município com 53,24%. Ao mesmo tempo, o deputado federal Elmar Nascimento, do União Brasil, obteve 17.331 votos no município, equivalentes a 40,36% dos votos nominais válidos para deputado federal. Gabriel Nunes, do PSD, apareceu logo depois, com 12.950.

Para deputado estadual ocorreu fenômeno semelhante: Adolfo Menezes, do PSD, recebeu 21.610 votos em Campo Formoso, 49,74% dos nominais válidos, enquanto Júnior Nascimento, do União Brasil, teve 15.486, ou 35,65%.

Ou seja: o eleitor que votou em um candidato de determinado grupo para governador não necessariamente escolheu deputados do mesmo campo. Essa característica torna arriscada qualquer análise de 2026 baseada apenas na soma das alianças dos prefeitos ou no resultado estadual de quatro anos atrás.

Elmar volta à urna com uma das maiores bases locais de 2022

Entre os nomes com ligação direta com o Piemonte, Elmar Nascimento é um dos casos mais claros de candidato de 2022 que retorna à disputa em 2026. Natural de Campo Formoso e deputado federal no mandato 2023–2027, ele oficializou em 22 de julho a candidatura à reeleição.

O tamanho da base de 2022 ajuda a explicar por que sua votação interessa particularmente à região. Além dos 17.331 votos obtidos em Campo Formoso, Elmar foi o deputado federal mais votado em Senhor do Bonfim, com 7.492 votos, ou 20,07% dos votos nominais válidos.

Sua campanha também terá valor como termômetro político. Ao longo de 2026, Elmar participou de conversas que alimentaram especulações de aproximação com a base de Jerônimo. O movimento não resultou em sua saída do União Brasil: em julho, ele permaneceu ao lado de ACM Neto e lançou a própria reeleição.

Daniel Almeida reaparece; Bobô e Júnior têm bases que merecem atenção

Na Federação Brasil da Esperança, a definição da chapa proporcional apontou Daniel Almeida, do PCdoB, novamente para a Câmara dos Deputados, ao lado de Alice Portugal. Daniel foi reeleito em 2022 e possui votação espalhada por municípios do Piemonte.

Na disputa estadual, a movimentação de Bobô, atual deputado do PCdoB e natural de Senhor do Bonfim, também merece acompanhamento. Em 2022, ele recebeu 12.476 votos somente em Senhor do Bonfim, equivalentes a 33,26% da votação nominal válida para deputado estadual no município. Júnior Nascimento veio em seguida, com 5.092 votos.

Júnior segue no atual mandato pelo União Brasil e entrou em 2026 discutindo publicamente a capacidade eleitoral da federação formada por União Brasil e PP. A confirmação final da situação individual desses e de outros candidatos proporcionais deve, entretanto, ser conferida diretamente no TSE depois do encerramento dos registros.

Josias Gomes deixa votos sem um candidato natural à reeleição

Também é importante observar quem não repetirá a eleição de 2022.

Josias Gomes, que foi deputado federal e recebeu votações importantes em municípios do norte baiano, deixou a Câmara. Em 2 de janeiro de 2026, tomou posse como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.

Na prática política, bases que votaram nele em 2022 precisarão escolher outros nomes para a Câmara em 2026. Essa redistribuição é especialmente relevante em eleições proporcionais: alguns milhares de votos deslocados entre candidatos podem mudar posições dentro de uma federação ou partido e interferir na composição final das bancadas.

O que esperar de 2026

A principal conclusão que os resultados de 2022 permitem tirar não é quem vencerá em 2026, mas onde estão as disputas.

Jerônimo entra na campanha com a vantagem e o desgaste naturais de quem ocupa o governo: poderá apresentar entregas e estrutura política construída durante o mandato, mas também responderá diretamente pela avaliação dos serviços estaduais. ACM Neto volta à urna depois de uma derrota apertada no segundo turno e agora conta com uma oposição estadual menos fragmentada do que no primeiro turno de 2022.

No Piemonte, o peso das administrações municipais eleitas em 2024 e das lideranças locais deverá ser grande, especialmente nas eleições para deputado. Mas apoio de prefeito não equivale a transferência automática de votos. Os próprios resultados de Campo Formoso, Andorinha e Senhor do Bonfim em 2022 mostram que o eleitor pode votar em partidos e grupos diferentes para presidente, governador, senador e deputados.

Outro ponto será a capacidade dos candidatos proporcionais de conservar redutos. Elmar Nascimento terá de testar novamente sua força em Campo Formoso e Senhor do Bonfim; grupos ligados a Bobô, Júnior Nascimento e outros parlamentares disputarão espaço na Assembleia; e votos antes associados a nomes que saíram da eleição, como Josias Gomes, estarão disponíveis para novas alianças.

A campanha começa, portanto, com uma aparência de revanche no topo da chapa, mas com um tabuleiro regional bastante diferente embaixo dela.

Quem de 2022 reaparece em 2026

NomeEleição de 2022Situação política em 2026
Jerônimo Rodrigues (PT)Candidato e eleito governadorBusca a reeleição
ACM Neto (União)Candidato a governador, derrotado no 2º turnoCandidatura ao governo homologada em convenção
João Roma (PL)Candidato a governador; 9,08% no 1º turnoMudou de cargo e integra a chapa de ACM Neto para o Senado
Elmar Nascimento (União)Eleito deputado federalOficializou candidatura à reeleição
Daniel Almeida (PCdoB)Reeleito deputado federalIncluído novamente pela federação na disputa à Câmara
Josias Gomes (PT)Disputou e foi eleito deputado federalNão repete a disputa; tornou-se conselheiro do TCE-BA

Nota: o quadro representa as definições políticas verificadas até 8 de agosto. O prazo de registro na Justiça Eleitoral termina em 15 de agosto, e registro, eventual impugnação e julgamento podem alterar a situação oficial de candidaturas.

Por que isso importa?

A eleição estadual define quem comandará políticas e investimentos da Bahia entre 2027 e 2030, enquanto deputados e senadores participarão das decisões sobre orçamento, emendas, legislação e recursos destinados aos municípios.

Para o eleitor, olhar apenas para pesquisas estaduais esconde parte importante do processo. No Piemonte, a escolha dos deputados tem impacto direto na representação política da região e na interlocução dos municípios com Salvador e Brasília.

Impacto no Piemonte

O Piemonte chegará às urnas com redutos consolidados, mas também com votos em processo de redistribuição. Campo Formoso continuará sendo um teste relevante para o grupo de Elmar e Júnior Nascimento; Senhor do Bonfim terá novamente a força eleitoral de Bobô e de diferentes grupos estaduais; e municípios como Andorinha mostram uma base historicamente mais favorável ao campo governista na disputa pelo governo.

Nada disso assegura a repetição de 2022. O que os números mostram é uma região onde eleições majoritárias e proporcionais obedecem a lógicas diferentes. Essa talvez seja a variável mais importante para acompanhar até outubro.