O IBGE está reconstruindo a base das Contas Nacionais brasileiras, conjunto de estatísticas que sustenta o cálculo do Produto Interno Bruto (PIB). A nova referência será 2021, substituindo 2010, e o processo prevê incorporar, quando possível, recomendações do Sistema de Contas Nacionais 2025 (SNA 2025), padrão internacional coordenado no âmbito das Nações Unidas.
Foi daí que ganhou força a discussão sobre a presença de bets, contrabando e comércio de drogas nas estatísticas econômicas. O ponto central, porém, é menos espetacular do que algumas manchetes sugerem: o PIB não mede se uma atividade é moral, desejável ou legal. Ele procura medir produção econômica dentro de regras estatísticas comparáveis entre países.
De onde surgiu a história de tráfico de drogas no PIB
O SNA 2025 mantém um princípio já conhecido das contas nacionais: determinadas atividades ilegais podem estar dentro da chamada fronteira de produção quando existe produção de um bem ou serviço e uma transação de mercado voluntária entre as partes. O manual internacional cita atividades como produção e distribuição de narcóticos e contrabando entre os casos que podem ser contabilizados estatisticamente.
Isso não significa que qualquer crime gere PIB. Um furto ou roubo, por exemplo, é essencialmente uma transferência de patrimônio de uma pessoa para outra e não a produção de um novo bem ou serviço. Já a fabricação e venda de um produto ilegal pode ser tratada, para fins estatísticos, como atividade produtiva, ainda que continue proibida pela lei.
Também não se trata de uma regra criada agora pelo governo brasileiro. A ideia de incluir determinadas atividades ilegais nas contas nacionais já aparece em padrões internacionais anteriores e é adotada, com metodologias próprias, por países que estimam mercados ilegais para tornar seus indicadores mais comparáveis.
E as bets? O valor apostado inteiro não vira PIB
No caso das apostas, existe outra confusão frequente. Se um apostador deposita R$ 100 em uma plataforma, isso não significa que R$ 100 sejam automaticamente adicionados ao PIB. A contabilidade nacional separa o fluxo de dinheiro entre apostadores e prêmios do valor do serviço efetivamente produzido pelo operador da aposta.
Em termos simplificados, interessa principalmente a remuneração associada ao serviço de jogo ou aposta, e não a soma bruta de todas as apostas realizadas. Portanto, usar o volume total movimentado pelas bets como se fosse aumento direto do PIB produz uma leitura errada.
O IBGE já passou a observar esse mercado com mais detalhe. Na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2024-2025, o instituto incluiu perguntas específicas sobre jogos e apostas online, as bets. A coleta ajuda a atualizar a fotografia do consumo das famílias em uma economia que mudou bastante desde a base anterior.
O que o IBGE já confirmou — e o que ainda não confirmou
Há três coisas que precisam ser separadas. A primeira é a revisão das Contas Nacionais e a mudança do ano de referência para 2021, que fazem parte do processo de modernização estatística. A segunda é o padrão internacional, que admite a mensuração de determinadas atividades ilegais. A terceira é o resultado concreto disso no Brasil, que depende das fontes de dados, métodos de estimação e decisões técnicas adotadas pelo IBGE.
Até agora, não há uma tabela oficial definitiva dizendo que “o tráfico de drogas acrescentará R$ X bilhões ao PIB brasileiro”. Também não é correto tratar como concluído um impacto percentual específico antes de o instituto divulgar a metodologia aplicada e as séries revisadas.
Por isso, a frase “o IBGE decidiu colocar o tráfico no PIB” precisa de contexto. O que existe é uma revisão ampla das contas nacionais, orientada por padrões internacionais, na qual atividades antes ausentes ou subestimadas podem passar a ser melhor captadas.
PIB maior no papel não significa melhora imediata da economia
Uma revisão metodológica pode alterar o nível medido do PIB sem que, naquele momento, tenha ocorrido aumento de vendas, contratação de trabalhadores ou crescimento da renda. É como melhorar a régua usada para medir uma atividade que já existia.
Isso também pode modificar relações calculadas com o PIB no denominador. Se uma revisão elevar o tamanho estimado da economia e a dívida permanecer igual, por exemplo, a razão dívida/PIB pode cair por efeito aritmético. Isso é diferente de uma redução efetiva do estoque da dívida.
O mesmo cuidado vale para o noticiário sobre atividade econômica. Nesta semana, o Portal mostrou que o IBC-Br recuou em julho e confirmou perda de ritmo. Uma mudança na régua estatística do PIB não apaga movimentos conjunturais captados por emprego, crédito, consumo ou produção.
O que isso muda para o Piemonte Norte do Itapicuru
Para quem acompanha Senhor do Bonfim, Campo Formoso, Jaguarari, Pindobaçu, Filadélfia, Ponto Novo, Andorinha, Antônio Gonçalves e Caldeirão Grande, a principal consequência é de interpretação. Se a nova base elevar o PIB brasileiro ou revisar séries anteriores, isso não deve ser lido automaticamente como melhora do comércio regional.
Para saber se a economia local está efetivamente melhorando, é preciso cruzar outros indicadores: emprego formal, abertura e fechamento de empresas, crédito, renda, consumo e movimento dos diferentes setores. O Portal já mostrou, por exemplo, por que saldo mensal de empregos não é a mesma coisa que estoque de vagas, uma distinção importante pelo mesmo motivo: indicadores diferentes respondem a perguntas diferentes.
O Piemonte Econômico segue justamente essa lógica ao acompanhar a estrutura empresarial e os movimentos do território. O objetivo é não transformar um único número nacional em diagnóstico automático para nove municípios com atividades econômicas distintas.
Por que o PIB não mede bem-estar
A controvérsia ajuda a lembrar uma limitação antiga do PIB. O indicador mede produção econômica, não felicidade, segurança, qualidade de vida ou valor moral daquilo que foi produzido. Gastos decorrentes de problemas sociais também podem movimentar atividades econômicas, sem que isso signifique melhora do bem-estar coletivo.
É por isso que a eventual mensuração de bets ou de mercados ilegais não deve ser interpretada como aprovação dessas atividades pelo Estado. Para o estatístico, a pergunta é se houve produção e transação econômica que precisam ser registradas para que o tamanho da economia seja comparável. Para políticas públicas, Justiça, saúde e segurança, as perguntas são outras.
O que acontece agora
O ponto decisivo será acompanhar as divulgações técnicas do IBGE sobre a nova base das Contas Nacionais: quais fontes serão usadas, quais atividades serão efetivamente incorporadas, como serão estimadas e qual será o efeito sobre as séries históricas. Até essa divulgação, números fechados atribuídos ao impacto do tráfico ou das bets no PIB devem ser tratados com cautela.
A mudança pode tornar a fotografia estatística da economia mais completa. Mas uma fotografia mais completa não transforma atividade ilegal em atividade desejável e tampouco significa, por si só, que famílias e empresas ficaram mais ricas.
Fontes: IBGE; Sistema de Contas Nacionais 2025 (ONU); Pesquisa de Orçamentos Familiares 2024-2025.