A disputa entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto pelo Governo da Bahia em 2026 não foi construída apenas em pesquisas, debates ou programas de televisão. Ela também aconteceu na estrada, em caminhadas, carreatas, comícios, encontros com prefeitos e articulações feitas município por município.

Os dois chegaram às urnas depois de percorrer caminhos políticos diferentes. Jerônimo, candidato à reeleição, apostou em uma campanha mais capilarizada, com presença em maior número de cidades e apoio declarado de centenas de prefeitos. ACM Neto, por sua vez, percorreu mais quilômetros e buscou consolidar bases próprias em centros regionais e municípios onde aliados locais assumiram publicamente seu palanque.

Jerônimo escolheu a capilaridade

Um levantamento publicado pelo Bahia Notícias durante a campanha mostrou que, nos primeiros 23 dias do período eleitoral, Jerônimo havia passado por 47 municípios e percorrido pelo menos 8,7 mil quilômetros. ACM Neto, no mesmo intervalo, havia visitado 25 cidades, mas somava distância maior: mais de 11 mil quilômetros.

A diferença ajuda a entender duas estratégias. Jerônimo priorizou uma presença mais espalhada, entrando em cidades pequenas e médias e tentando transformar a estrutura do governo e a rede de aliados em proximidade política. Neto fez deslocamentos mais longos e buscou reforçar palanques de maior peso regional.

A força dos prefeitos virou parte central da campanha

Na reta final, outro levantamento do Bahia Notícias apontou 346 prefeitos com apoio público a Jerônimo e 53 gestores apoiando ACM Neto. O número, por si só, não determina uma eleição, mas revela o tamanho da rede municipal construída pelo governador.

Esse movimento não aconteceu apenas dentro de partidos tradicionalmente ligados ao PT. Parte da campanha de Jerônimo foi justamente atrair prefeitos e lideranças de legendas que, em tese, poderiam estar mais próximas da oposição.

Em alguns casos, isso produziu divisões internas dentro dos próprios partidos. O União Brasil, partido de ACM Neto, chegou à reta final com prefeitos apoiando Jerônimo, enquanto outros mantiveram fidelidade ao ex-prefeito de Salvador.

ACM Neto apostou em palanques locais mais nítidos

A campanha de Neto também construiu uma rede própria, mas com outro desenho. Em várias cidades, o ex-prefeito de Salvador apareceu ao lado de prefeitos, ex-prefeitos e grupos locais que assumiram publicamente sua candidatura.

Campo Formoso foi um exemplo claro no Piemonte Norte do Itapicuru. O prefeito Elmo Nascimento transformou em apoio eleitoral explícito uma relação que antes precisava ser tratada apenas como institucional. Em comício realizado em setembro, Elmo declarou apoio a ACM Neto e colocou seu grupo político no palanque da oposição estadual.

Filadélfia também registrou movimento semelhante. O ex-prefeito Barbosa Júnior deixou o campo político com o qual havia se alinhado por anos e passou a apoiar Neto para governador.

Em Senhor do Bonfim, o prefeito Laércio Júnior também declarou apoio a ACM Neto, enquanto outras lideranças locais seguiram caminho diferente.

No Piemonte, os palanques ficaram divididos

O Piemonte Norte do Itapicuru mostrou de forma muito clara que a eleição baiana não foi uma disputa organizada apenas por partidos.

Em Senhor do Bonfim, Laércio ficou com ACM Neto, enquanto Weslen Aquino declarou apoio a Jerônimo. Em Campo Formoso, Elmo Nascimento apoiou Neto, apesar de manter relação institucional com o Governo do Estado. Em Filadélfia, Barbosa Júnior foi para o palanque de Neto, enquanto lideranças da gestão municipal apareceram em agendas ligadas ao grupo de Jerônimo.

Já em Ponto Novo, a prefeita Doutora Fabiane declarou apoio a Jerônimo. Em outros municípios, os apoios foram mais fragmentados ou menos formalizados publicamente.

Esse desenho mostra como a campanha estadual atravessou disputas municipais e, ao mesmo tempo, foi moldada por elas.

Jerônimo levou o governo para a campanha

Como governador, Jerônimo entrou na disputa com uma vantagem estrutural: a capacidade de circular pelo estado apresentando obras, entregas, convênios e investimentos realizados durante o mandato.

Durante a campanha, ele também levou o chamado “Time de Lula” para cidades administradas por adversários e participou de caminhadas ao lado de Rui Costa, Jaques Wagner e outras lideranças da base.

Essa estratégia buscava mostrar continuidade administrativa e amplitude política: não apenas pedir voto, mas reforçar a ideia de que o governo estadual já estava presente em diferentes regiões.

Neto tentou reconstruir a rede de 2022

ACM Neto chegou a 2026 depois de ter perdido a eleição de 2022 por uma diferença relativamente pequena no segundo turno. Sua campanha buscou preservar os territórios em que já tinha força e reconstruir uma rede municipal capaz de competir com a estrutura governista.

Por isso, grandes atos em cidades regionais ganharam importância. Em Campo Formoso, por exemplo, um comício reuniu lideranças locais e foi usado para marcar território político. Em outros municípios, carreatas e agendas de rua procuraram reforçar a presença do candidato fora de Salvador.

Neto também encerrou a campanha percorrendo cidades como Feira de Santana, Alagoinhas e Ilhéus, enquanto Jerônimo fez uma sequência de caminhadas em municípios do Recôncavo e do Vale do Jiquiriçá.

Duas formas de percorrer a Bahia

No fim, a campanha apresentou duas formas distintas de disputar o estado.

Jerônimo apostou em capilaridade, rede de prefeitos e presença institucional. ACM Neto apostou em grandes deslocamentos, bases regionais e palanques locais identificados com sua candidatura.

Essas estratégias não são opostas em todos os aspectos. Os dois fizeram caminhadas, carreatas, comícios e encontros com lideranças. A diferença esteve no peso de cada elemento dentro da construção política.

As alianças ajudam a explicar a eleição, mas não substituem o voto

Um prefeito pode declarar apoio, organizar um ato e subir no palanque de um candidato. Isso não significa que consiga transferir todos os seus votos. A eleição municipal e a estadual obedecem a lógicas diferentes, e o eleitor pode acompanhar uma liderança em um cargo e discordar dela em outro.

O próprio Piemonte deu exemplos disso. Em Caldeirão Grande, Lula venceu para presidente e ACM Neto venceu para governador. Em Campo Formoso, Jerônimo ficou à frente para governador enquanto candidaturas ligadas ao grupo Nascimento dominaram boa parte da votação proporcional.

Por isso, as alianças ajudam a contar a caminhada de cada candidato, mas não explicam sozinhas o resultado das urnas.

Uma eleição construída muito antes do domingo

A disputa entre Jerônimo e ACM Neto começou muito antes da votação de 4 de outubro. Ela foi sendo construída em visitas ao interior, rompimentos, adesões, encontros de prefeitos, comícios e acordos locais.

Jerônimo chegou à reta final com uma rede municipal mais ampla. ACM Neto chegou com menos prefeitos declarados, mas com palanques relevantes em cidades estratégicas e uma campanha que percorreu mais quilômetros.

Essa trajetória ajuda a compreender a eleição para além dos percentuais. O resultado das urnas é o ponto final de uma caminhada que começou meses antes, quando prefeitos, ex-prefeitos, vereadores e lideranças regionais começaram a escolher de que lado estariam.

Leia também o mapa dos apoios políticos nos nove municípios do Piemonte e a série Piemonte em 2026.

Fontes: cobertura do Portal do Piemonte sobre alianças municipais e levantamento do Bahia Notícias sobre deslocamentos e apoios de prefeitos durante a campanha de 2026.