A eleição de 2026 criou em Senhor do Bonfim uma situação politicamente incomum, mas não necessariamente contraditória: prefeito e vice continuam juntos na administração municipal, porém trabalham com duplas diferentes para a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa.
Laércio Júnior, do União Brasil, mantém sua ligação com o deputado federal Elmar Nascimento e com o deputado estadual Júnior Nascimento.
Eliseu Rios, liderança do Republicanos no município, preserva a relação política com Márcio Marinho, na disputa federal, e Jurailton Santos, na estadual.
A diferença de palanque acontece dentro de um governo que saiu das urnas de 2024 com uma das vitórias mais amplas da história recente de Senhor do Bonfim.
Laércio e Eliseu foram reeleitos na mesma chapa com 32.969 votos, equivalentes a 79,98% dos votos válidos.
Helder Amorim, do PT, obteve 8.108 votos, e Rigoberto Batista, 144.
O tamanho daquela vitória transformou o grupo governista em uma coalizão muito maior do que um único partido e ajuda a explicar por que, dois anos depois, aliados podem disputar espaço eleitoral sem que isso signifique rompimento automático.
O ponto de partida está em 2022
Os resultados da eleição geral anterior mostram que as redes ligadas ao prefeito e ao vice tinham pesos bastante diferentes quando o eleitor escolheu deputados.
Para deputado federal, Elmar Nascimento foi o mais votado em Senhor do Bonfim, com 7.492 votos, o equivalente a 20,07% dos votos válidos para o cargo.
Márcio Marinho recebeu 1.040 votos, ou 2,79%.
Na disputa estadual, Júnior Nascimento terminou em segundo lugar no município, com 5.092 votos, ou 13,57%.
Jurailton Santos recebeu 556 votos, 1,48%.
O deputado Bobô, do PCdoB e natural de Senhor do Bonfim, foi o campeão local para a Assembleia, com 12.476 votos, mostrando que o eleitorado bonfinense não se organiza em um único bloco e que a força municipal do prefeito não se converte automaticamente em voto para qualquer candidato indicado por seu grupo.
| Candidato | Cargo em 2022 | Votos em Bonfim | % dos válidos |
|---|---|---|---|
| Elmar Nascimento | Deputado federal | 7.492 | 20,07% |
| Márcio Marinho | Deputado federal | 1.040 | 2,79% |
| Júnior Nascimento | Deputado estadual | 5.092 | 13,57% |
| Jurailton Santos | Deputado estadual | 556 | 1,48% |
Não são dois governos; são duas redes dentro da mesma coalizão
O desenho partidário ajuda a entender a situação.
Em 2024, a chapa de Laércio e Eliseu reuniu uma coligação ampla, com União Brasil, Republicanos e outras legendas.
Em 2026, União Brasil e Republicanos também estão no mesmo campo de oposição ao governo estadual do PT e integram a aliança que sustenta ACM Neto para governador.
Portanto, a diferença entre os candidatos a deputado não representa, por si só, uma divisão entre governo e oposição em Senhor do Bonfim.
Ela é, principalmente, uma competição por espaço dentro do campo que administra a cidade.
Esse detalhe muda a leitura do resultado de outubro.
Se Elmar repetir ou ampliar os 7.492 votos e Júnior superar os 5.092, Laércio poderá apresentar o desempenho como demonstração de que continua tendo forte capacidade de transferência dentro do eleitorado que lhe deu quase 33 mil votos em 2024.
Se Márcio Marinho e Jurailton crescerem de forma acentuada sobre as marcas de 1.040 e 556 votos, Eliseu poderá mostrar que possui uma rede eleitoral própria e maior capacidade de negociação dentro da base.
2026 também conversa com a sucessão de 2028
A leitura fica ainda mais relevante porque Laércio Júnior foi eleito em 2020 e reeleito em 2024.
Pela regra constitucional atual, não poderá disputar um terceiro mandato consecutivo para prefeito em 2028.
Isso transforma a próxima eleição municipal em uma sucessão aberta e aumenta o valor político de cada teste de força realizado antes dela.
Eliseu, por ocupar a vice-prefeitura e comandar uma estrutura partidária própria no Republicanos, é naturalmente um dos nomes observados no debate sucessório, ainda que uma eventual candidatura em 2028 não possa ser tratada como definida três anos antes da eleição.
O desempenho de Márcio e Jurailton em 2026 pode elevar ou reduzir seu poder de negociação dentro do grupo.
O mesmo vale para Laércio: se seus candidatos mantiverem a liderança local, o prefeito chega aos dois últimos anos de mandato com mais condições de influenciar a escolha do nome que tentará sucedê-lo.
Há ainda uma terceira possibilidade: o resultado pode mostrar que as bases se misturam mais do que os dirigentes imaginam.
Movimentações recentes apontaram vereadores do Republicanos aproximando-se de Júnior Nascimento, mesmo ele sendo o candidato estadual associado ao grupo de Laércio.
A fronteira entre as duas redes, portanto, não é rígida e pode variar conforme o cargo em disputa.
O eleitor de Bonfim já mostrou que separa eleições
Outro cuidado é não confundir voto para deputado com voto para prefeito.
Em 2022, Lula venceu em Senhor do Bonfim no primeiro turno presidencial com 25.238 votos, enquanto Jair Bolsonaro teve 11.990.
No mesmo dia, ACM Neto ficou à frente de Jerônimo Rodrigues para governador no município, com 18.218 contra 17.115.
Dois anos depois, Laércio, candidato do União Brasil, chegou a 32.969 votos na eleição municipal.
São resultados que apontam para uma característica importante: o eleitor bonfinense não vota necessariamente em bloco ideológico.
Ele pode combinar escolhas de partidos e campos políticos diferentes para presidente, governador, deputado e prefeito.
Por isso, qualquer tentativa de transformar a votação de outubro em previsão matemática para 2028 seria frágil.
O que a eleição de 2026 pode revelar é outra coisa: capacidade de organização, presença territorial, densidade de lideranças, alcance de campanha e força de transferência.
A decisão municipal de 2028 dependerá também da avaliação da gestão, da composição das chapas, do cenário econômico, das alianças, da renovação de nomes e do desempenho da oposição.
O que observar em outubro
Para Elmar, a referência local é 7.492 votos.
Para Júnior, 5.092.
Para Márcio Marinho, 1.040.
Para Jurailton, 556.
A simples manutenção desses números já terá significados diferentes para cada grupo; crescimento expressivo terá peso ainda maior.
Mais importante do que declarar antecipadamente um vencedor será observar de onde vieram os votos, quais vereadores e lideranças entregaram resultado e se houve expansão para bairros e distritos onde cada grupo era mais fraco.
Prefeito e vice apoiando candidatos diferentes não significa, portanto, que o governo municipal esteja dividido.
Mas transforma a eleição de 2026 em uma espécie de primária informal dentro da base de Senhor do Bonfim.
O placar não escolherá o candidato a prefeito de 2028, mas ajudará a definir quem chegará à mesa de negociação com mais força quando essa conversa começar de verdade.
Fonte: Portal do Piemonte — Política.
Dados eleitorais consolidados pelo Portal a partir dos resultados oficiais da Justiça Eleitoral.