A ampliação do Plano Brasil Soberano, anunciada pelo governo federal em 22 de julho de 2026, abriu a possibilidade de acesso a crédito para exportadores e fornecedores dos setores agropecuário e mineral prejudicados por tarifas comerciais ou outras instabilidades internacionais. No Piemonte Norte do Itapicuru, a mudança pode ter interesse para atividades ligadas ao sisal de Campo Formoso e à mineração de Jaguarari, embora ainda não exista confirmação pública de empresas regionais habilitadas ou de recursos liberados.

A nova etapa foi iniciada com a publicação da Lei nº 15.473/2026 e da Medida Provisória nº 1.379/2026. Segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, além dos exportadores de bens industriais já atendidos, passam a integrar o público elegível exportadores e fornecedores da agricultura, pecuária, florestas plantadas, pesca, aquicultura e exploração de recursos minerais.

A ampliação ocorre em meio à adoção de novas tarifas pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros. O governo federal apresenta as linhas de financiamento como instrumentos para reduzir os efeitos de choques comerciais, preservar a produção e dar liquidez às empresas atingidas.

Regras ainda precisam de regulamentação

Apesar da inclusão de novos setores, o acesso não é automático. O próprio BNDES informa que as alterações dependem de regulamentação infralegal e que a plataforma utilizada para consultar a elegibilidade das empresas ainda estava sendo ajustada em 28 de julho de 2026.

Isso significa que produtores, cooperativas, fornecedores e exportadores da região ainda precisam aguardar a publicação das regras operacionais completas para verificar:

quais perdas ou exposições comerciais deverão ser comprovadas; qual percentual do faturamento precisará estar relacionado às exportações; quais documentos serão exigidos; quais linhas poderão financiar capital de giro ou investimentos; quais instituições financeiras poderão receber os pedidos.

A Medida Provisória nº 1.379 também amplia em até R$ 13,5 bilhões os recursos destinados ao financiamento das exportações brasileiras. A proposta foi publicada em 22 de julho e tem prazo inicial de vigência até 19 de setembro de 2026, salvo prorrogação pelo Congresso Nacional.

Sisal coloca Campo Formoso no radar

Campo Formoso aparece como um dos municípios com possível interesse na ampliação devido ao peso da cadeia do sisal. O município respondeu por 24,8% da produção brasileira da fibra em 2024, conforme análise da Companhia Nacional de Abastecimento utilizada na apuração anterior do Portal.

No primeiro trimestre de 2026, o sisal e seus derivados geraram US$ 24,06 milhões em exportações baianas. O valor representou queda de 1,11% na comparação com o mesmo período de 2025. O segmento respondeu por 0,91% das receitas de exportação da Bahia no trimestre.

A cadeia inclui produtores rurais, trabalhadores do corte e desfibramento, beneficiadoras, cooperativas, transportadores e empresas responsáveis pela comercialização. Como o novo plano também contempla fornecedores dos exportadores, o alcance potencial pode ser maior do que o grupo de empresas que realiza diretamente a venda internacional.

Essa possibilidade, porém, dependerá da redação final das normas. Não é possível afirmar que todo produtor ou fornecedor de sisal terá acesso ao crédito apenas por integrar a cadeia produtiva.

Mineração também foi incluída

A nova etapa menciona expressamente exportadores e fornecedores de recursos minerais. A inclusão pode ter relevância para Jaguarari, município com participação expressiva na pauta exportadora da Bahia e atividade econômica ligada à mineração.

No primeiro trimestre de 2026, o segmento de minerais da Bahia exportou US$ 194,6 milhões, crescimento de 30,62% em relação ao mesmo período de 2025. O grupo respondeu por 7,38% das exportações estaduais. Os metais preciosos, analisados separadamente, alcançaram US$ 353,5 milhões e representaram 13,41% da pauta baiana.

Os dados estaduais não permitem concluir quanto desses valores foi produzido em Jaguarari, qual parcela teve os Estados Unidos como destino ou quais empresas seriam elegíveis ao financiamento.

O interesse regional existe porque a lei passou a contemplar diretamente a atividade mineral. A confirmação do acesso dependerá da comprovação de que a empresa exportadora ou fornecedora foi afetada por tarifas majoradas, instabilidade geopolítica ou outro evento previsto nas normas.

Exportações baianas aos EUA recuaram

A ampliação do programa ocorre em um cenário de redução das vendas da Bahia para o mercado norte-americano. No primeiro trimestre de 2026, as exportações baianas aos Estados Unidos caíram 22,8% em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia.

O boletim estadual associa parte dessa queda aos efeitos da política tarifária adotada pelo governo norte-americano. No mesmo período, as exportações totais da Bahia recuaram 5,2%, passando de US$ 2,78 bilhões para US$ 2,64 bilhões.

A retração para os Estados Unidos não atingiu todos os segmentos da mesma maneira. Minerais apresentaram crescimento no conjunto das exportações baianas, enquanto sisal, calçados, café, cacau, papel e celulose tiveram redução.

Por isso, o enquadramento no plano deverá considerar a realidade individual de cada empresa e cadeia produtiva, e não apenas o desempenho geral das exportações do estado.

Crédito não substitui mercado

As linhas de financiamento podem ajudar empresas a manter capital de giro, produção e empregos enquanto renegociam contratos ou procuram novos compradores. O crédito, contudo, não elimina a tarifa cobrada na entrada do produto nos Estados Unidos.

Para uma empresa regional, o financiamento pode oferecer tempo para:

manter pagamentos a fornecedores; financiar estoques; preservar parte da produção; adaptar produtos; procurar outros mercados; reorganizar contratos e logística.

O risco é que empresas assumam novas dívidas sem conseguir recuperar as vendas ou substituir o mercado perdido. A efetividade do programa dependerá das taxas de juros, dos prazos, das garantias exigidas e da duração das barreiras comerciais.

Por que isso importa?

Pequenas e médias empresas geralmente possuem menor capacidade de absorver uma queda repentina nas vendas externas. Também enfrentam mais dificuldade para oferecer garantias bancárias, contratar proteção cambial ou abrir rapidamente mercados em outros países.

A inclusão dos fornecedores é relevante porque os efeitos de uma tarifa podem se espalhar por toda a cadeia. Quando uma empresa exportadora reduz pedidos, produtores rurais, prestadores de serviços, transportadores e terceirizados também podem perder receita.

O programa federal tenta impedir que um problema comercial externo provoque uma interrupção imediata na produção. Ainda será necessário verificar se as condições de acesso serão compatíveis com a realidade dos pequenos negócios e produtores do interior.

Impacto no Piemonte

No Piemonte Norte do Itapicuru, as atividades com conexão mais clara com a nova etapa são o sisal e a mineração.

Campo Formoso lidera a produção nacional de sisal e integra uma cadeia com presença no mercado externo. Como a lei passou a incluir a agricultura e os fornecedores dos exportadores, produtores, cooperativas e beneficiadoras podem ter interesse nas futuras regras do programa.

Jaguarari possui atividade mineral e participação relevante nas exportações baianas. A inclusão expressa de recursos minerais amplia a possibilidade de enquadramento de empresas exportadoras e de fornecedores ligados ao setor.

Ainda não há, porém, confirmação pública de que empresas instaladas nesses municípios tenham solicitado ou recebido recursos. Também não foram localizados dados que apontem beneficiários em Andorinha, Antônio Gonçalves, Caldeirão Grande, Filadélfia, Pindobaçu, Ponto Novo ou Senhor do Bonfim.

A ausência de informação não exclui a possibilidade de acesso. Fornecedores situados nesses municípios poderão ser alcançados caso integrem cadeias de empresas exportadoras afetadas e atendam aos critérios que ainda serão regulamentados.