Os governos costumam destacar recordes de arrecadação, emprego, investimentos e crescimento. O mesmo rigor, porém, precisa ser aplicado quando os números apontam deterioração econômica, aumento da inadimplência ou queda na qualidade dos serviços públicos.

Uma análise responsável não deve simplesmente reunir indicadores negativos e atribuir todos eles ao presidente da República. Também não pode ignorar os números quando eles revelam problemas persistentes.

O caminho mais equilibrado é verificar cada dado, entender o que está sendo medido, comparar períodos equivalentes e identificar quais fatores estão sob controle direto do governo.

Empresas encerraram 2025 com inadimplência recorde

Um dos indicadores mais preocupantes está no setor empresarial.

Dados divulgados pela Serasa Experian mostram que as empresas brasileiras terminaram 2025 com aproximadamente R$ 213 bilhões em dívidas negativadas. O número de negócios inadimplentes alcançou 9,5 milhões, cerca de 2 milhões a mais que no encerramento de 2024.

Desse total, aproximadamente 8,5 milhões eram micro e pequenas empresas, segmento que possui menor acesso ao crédito e menos capacidade para absorver aumentos de custos, queda no consumo e atrasos de clientes.

A inadimplência não decorre de um único fator. Juros elevados, despesas operacionais, baixa disponibilidade de crédito, carga tributária, aluguel, salários e redução das margens podem comprometer o caixa mesmo de empresas que continuam vendendo.

O dado também não significa que 9,5 milhões de empresas estejam prestes a fechar. Uma empresa pode possuir débitos negativados e continuar operando, renegociando ou recuperando sua capacidade de pagamento.

Ainda assim, o recorde demonstra que uma parcela significativa do setor produtivo enfrenta dificuldades para manter compromissos em dia.

Recuperações judiciais também atingiram novo patamar

O número de empresas envolvidas em recuperações judiciais chegou a 2.466 em 2025, alta de 13% em comparação com 2024 e maior patamar da série divulgada pela Serasa Experian.

O levantamento identificou 977 processos, quantidade menor que o número de CNPJs porque um mesmo pedido pode envolver diferentes empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico.

A recuperação judicial não representa falência. Ela é um instrumento previsto em lei para permitir que empresas renegociem dívidas, preservem atividades e evitem o encerramento definitivo.

Mesmo assim, a alta indica aumento da pressão financeira sobre negócios de diferentes portes.

Serviços e agropecuária concentraram parte importante das empresas envolvidas, refletindo os efeitos do crédito mais seletivo, das oscilações de preços e da exposição a fatores climáticos e econômicos.

Contas públicas carregam peso elevado dos juros

O resultado fiscal brasileiro também exige atenção.

Em 2024, os juros nominais pagos pelo setor público consolidado alcançaram R$ 950,4 bilhões, equivalentes a 8,05% do Produto Interno Bruto. O valor foi superior aos R$ 718,3 bilhões registrados em 2023.

Esse montante não corresponde apenas a despesas criadas pelo governo no mesmo ano. Ele é influenciado pelo tamanho da dívida acumulada, pela taxa básica de juros, pela inflação e pela composição dos títulos públicos.

Mesmo assim, quanto maior o gasto com juros, menor é a margem financeira para políticas públicas, investimentos e redução da própria dívida.

Em 2025, o setor público consolidado terminou o ano com superávit primário de R$ 9,5 bilhões. O resultado primário desconsidera os juros e mostra a diferença entre receitas e despesas não financeiras.

Isso significa que o governo, os estados, os municípios e as estatais arrecadaram um pouco mais do que gastaram antes dos juros. Quando os encargos da dívida são incluídos, porém, o resultado permanece pressionado.

A situação ajuda a explicar por que o aumento da arrecadação não produz automaticamente equilíbrio fiscal.

Comparar arrecadação sem corrigir a inflação pode enganar

Valores nominais de arrecadação tendem a crescer ao longo dos anos por causa da inflação, do crescimento econômico, de mudanças tributárias e do aumento dos preços.

Por isso, afirmar que determinado governo estabeleceu o maior valor de receita da história não basta para demonstrar aumento real da carga tributária ou maior eficiência arrecadatória.

A comparação precisa considerar a inflação e a participação das receitas no PIB.

Também é necessário separar arrecadação federal, carga tributária total e receitas extraordinárias, como dividendos, concessões e pagamentos atípicos.

O mesmo cuidado vale para despesas com viagens, publicidade, emendas parlamentares e cargos de confiança.

Comparar valores de 2019 com números de 2025 sem atualização monetária pode exagerar diferenças e produzir uma conclusão incompleta.

Resultado das estatais varia conforme o grupo analisado

O desempenho das empresas estatais também aparece com frequência no debate político.

Os dados do Banco Central abrangem empresas controladas pelo poder público, mas excluem algumas companhias de maior porte, como Petrobras e instituições financeiras, devido à metodologia das estatísticas fiscais.

Isso significa que expressões como “rombo das estatais” precisam explicar exatamente quais empresas foram consideradas.

Em diferentes meses de 2025, as estatais oscilaram entre déficit e superávit. Em dezembro, registraram superávit primário de R$ 4,5 bilhões, contribuindo para o resultado positivo do setor público no mês.

Em outros períodos, companhias importantes enfrentaram dificuldades. Os Correios, por exemplo, acumularam perdas relevantes e passaram a discutir medidas de reestruturação.

O resultado de uma estatal não deve ser avaliado apenas pelo lucro anual. Também precisam ser observados investimentos, qualidade do serviço, endividamento, eficiência operacional e a função pública exercida pela empresa.

Ainda assim, prejuízos recorrentes exigem explicações, plano de recuperação e transparência, principalmente quando podem resultar em aportes do Tesouro.

Fila do INSS chegou a 2,86 milhões de requerimentos

A espera por benefícios previdenciários atingiu aproximadamente 2,862 milhões de requerimentos em outubro de 2025, segundo informações do próprio INSS.

O órgão afirmou que parte da fila não dependia exclusivamente da análise de seus servidores. Havia pedidos aguardando perícia médica, atualização de sistemas, documentos dos requerentes ou procedimentos de outros órgãos.

Essa distinção é importante para entender a chamada governabilidade da fila.

Mesmo assim, para quem espera aposentadoria, pensão, benefício por incapacidade ou assistência social, a responsabilidade institucional é percebida como uma só: entregar uma resposta dentro de prazo razoável.

O número elevado compromete a renda de famílias que muitas vezes já estão em situação de vulnerabilidade.

A fila deve ser acompanhada não apenas pelo total de pedidos, mas também pelo tempo médio de espera, pelo tipo de benefício e pela quantidade de requerimentos concluídos a cada mês.

Queimadas recordes não podem ser explicadas por um único agente

Os focos de calor registrados na Amazônia em 2024 também foram usados como indicador de desempenho governamental.

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais permitem acompanhar os registros por bioma, estado e município.

A quantidade de focos é influenciada por seca, temperatura, ação humana, desmatamento, fiscalização e capacidade de resposta dos governos.

Eventos climáticos extremos podem ampliar fortemente os incêndios, mas isso não elimina a responsabilidade do poder público na prevenção, no combate e na punição dos responsáveis por queimadas ilegais.

Também é necessário distinguir focos de calor, área queimada e taxa de desmatamento. São indicadores relacionados, mas não equivalentes.

Um ano pode registrar redução do desmatamento e aumento dos focos de incêndio por causa de condições climáticas mais severas.

Recordes de violência contra mulheres refletem problema estrutural

O aumento dos feminicídios representa outro sinal de alerta.

Comparações históricas precisam considerar mudanças na legislação, melhoria no registro das ocorrências e maior capacidade das autoridades de classificar corretamente os crimes.

Mesmo com essas ressalvas, o crescimento de assassinatos de mulheres por razões de gênero não pode ser tratado apenas como efeito estatístico.

A prevenção depende da integração entre União, estados e municípios, com delegacias especializadas, medidas protetivas, abrigos, assistência social, educação e resposta rápida do Judiciário.

A responsabilidade não é exclusiva do governo federal, porque a execução direta da política de segurança pública está concentrada nos estados. A União, entretanto, possui papel no financiamento, na coordenação nacional e na formulação das políticas.

Emendas parlamentares cresceram mas dependem do Congresso

O pagamento de emendas parlamentares também aumentou nos últimos anos.

Esse volume costuma ser apresentado como decisão exclusiva do Executivo, mas parte das emendas é impositiva. Isso significa que o governo possui obrigação constitucional de executar os recursos aprovados pelo Congresso, desde que sejam cumpridas as exigências legais.

O Executivo ainda controla o ritmo de parte dos pagamentos e negocia liberações no relacionamento com deputados e senadores.

Por isso, as emendas possuem dupla dimensão: são instrumento de destinação de recursos aos estados e municípios e também fazem parte da articulação política entre governo e Congresso.

O problema central não está apenas no valor pago, mas na transparência sobre o parlamentar responsável, a finalidade, o beneficiário, o contrato executado e o resultado entregue.

Nem toda piora começou no atual governo

O Brasil carrega problemas estruturais que atravessam diferentes administrações.

Baixa produtividade, carga tributária complexa, desigualdade, infraestrutura insuficiente, demora na Justiça, dificuldade de acesso ao crédito e fragilidade da gestão pública não começaram em janeiro de 2023.

A pandemia também deixou empresas endividadas, aumentou gastos públicos e produziu efeitos duradouros sobre educação, saúde e mercado de trabalho.

Ao mesmo tempo, três anos de governo são suficientes para que políticas econômicas, escolhas orçamentárias e capacidade de gestão sejam avaliadas.

Reconhecer problemas herdados não elimina a responsabilidade do governo atual por enfrentar ou agravar essas dificuldades.

O que os números realmente mostram

Os recordes analisados não permitem uma conclusão única sobre toda a gestão federal.

Alguns dados são diretamente influenciados por decisões do governo. Outros dependem do Congresso, do Banco Central, dos estados, dos municípios, do clima ou das condições internacionais.

Há ainda indicadores que ficam maiores naturalmente com o passar do tempo quando são apresentados apenas em valores nominais.

Mesmo com essas limitações, o conjunto revela quatro desafios importantes: empresas mais endividadas, crédito caro, serviços públicos com filas elevadas e contas públicas pressionadas pelos juros.

Esses problemas se conectam.

Quando a dívida pública e os juros crescem, o crédito fica mais caro. Com financiamento restrito, empresas reduzem investimentos, atrasam pagamentos ou buscam recuperação judicial. A desaceleração da economia limita a arrecadação e aumenta a procura por políticas sociais.

O debate público precisa sair da disputa entre propaganda governamental e oposição automática.

Recordes positivos merecem comemoração quando resistem à análise. Recordes negativos exigem resposta, correção de rumo e transparência.