Duas das principais cadeias econômicas do Piemonte Norte do Itapicuru entraram na área de atenção após os Estados Unidos adotarem novas sobretaxas sobre produtos brasileiros. Dados oficiais mostram o peso de Jaguarari nas exportações da Bahia e a liderança de Campo Formoso na produção nacional de sisal, mas ainda não permitem concluir que empresas ou produtores da região estejam pagando a alíquota máxima de 37,5%.
O percentual resulta da possível combinação de duas medidas comerciais. Uma delas estabelece tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos do Brasil. A outra aplica uma cobrança de 12,5% ao país no âmbito de uma ação norte-americana contra 60 economias, relacionada à fiscalização de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Alguns produtos podem ser alcançados pelas duas decisões, enquanto outros estão sujeitos a apenas uma delas ou foram excepcionados.
Segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, 23,1% das exportações brasileiras aos Estados Unidos estão submetidas a pelo menos uma das novas sobretaxas. Em 16,5% da pauta, as medidas podem ser acumuladas, elevando a cobrança adicional a 37,5%.
Jaguarari aparece entre os principais exportadores da Bahia
Jaguarari respondeu por 4,04% das exportações baianas acumuladas entre janeiro e abril de 2026, conforme o Informe Executivo de Comércio Exterior da Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia. O município apareceu entre os maiores exportadores do estado no período.
A posição confirma a importância do comércio exterior para a economia municipal e reforça a necessidade de acompanhamento dos efeitos das medidas norte-americanas. Jaguarari possui uma cadeia mineral relevante, mas o boletim estadual não apresenta, no mesmo quadro, o cruzamento completo entre município, mercadoria e país comprador.
Por essa razão, o dado de participação nas exportações baianas não comprova que os produtos enviados por empresas instaladas em Jaguarari tenham como destino os Estados Unidos. Também não permite determinar quais códigos tarifários foram usados nas operações ou se as mercadorias estão incluídas nas duas listas.
A incidência não pode ser definida apenas por expressões amplas, como “minério”, “cobre” ou “produto mineral”. A cobrança depende da classificação aduaneira exata e das exceções previstas nos atos comerciais norte-americanos.
Campo Formoso lidera produção brasileira de sisal
Em Campo Formoso, a exposição potencial está relacionada ao sisal. Análise da Companhia Nacional de Abastecimento mostra que o município respondeu por 24,8% da produção brasileira da fibra em 2024, ocupando a primeira posição nacional. A Bahia concentrou 94,8% de toda a produção do país naquele ano.
Os Estados Unidos também têm participação expressiva na demanda pelo produto brasileiro. Entre janeiro e março de 2026, o mercado norte-americano recebeu 30,1% da quantidade de sisal e derivados exportada pelo Brasil, ficando atrás apenas da China.
O levantamento da Conab considera diferentes apresentações do produto, incluindo fibras, fios, cordéis, cordas, tapetes e outros revestimentos. Os códigos brasileiros relacionados na análise são:
- 53041000
- 53049000
- 53050090
- 53089000
- 56072100
- 56072900
- 57019000
Os dados demonstram uma ligação econômica concreta entre a cadeia produtiva liderada por Campo Formoso e o mercado norte-americano. Isso não significa, entretanto, que todo o sisal produzido no município seja exportado diretamente para os Estados Unidos.
Parte da produção pode ser vendida a beneficiadoras, cooperativas ou empresas exportadoras estabelecidas em outros municípios. Nesses casos, a exportação pode aparecer nos sistemas oficiais associada ao endereço da empresa responsável pela operação, e não necessariamente ao local de cultivo da fibra.
Também é necessário verificar cada código brasileiro e sua correspondência no sistema tarifário dos Estados Unidos para estabelecer se o produto recebeu a tarifa de 25%, a de 12,5%, as duas cobranças ou alguma exceção.
Alíquota de 37,5% não é geral
A tarifa de 37,5% não foi aplicada a tudo o que o Brasil vende aos Estados Unidos. Ela resulta da soma das duas sobretaxas apenas quando uma mercadoria está incluída simultaneamente nas duas medidas.
O levantamento do governo brasileiro aponta que 16,5% das exportações nacionais ao mercado norte-americano podem receber as duas cobranças. Outros 6,6% estão sujeitos a somente uma das tarifas. Mais da metade da pauta brasileira permanece fora dessas duas medidas específicas, embora possa continuar pagando as tarifas ordinárias ou cobranças setoriais já existentes.
Entre os grupos potencialmente submetidos às duas medidas estão máquinas e equipamentos, tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e artigos de confecção. Minérios e outros produtos aparecem em grupos cuja situação depende da lista e da classificação específica da mercadoria.
Medidas foram precedidas por investigações
A tarifa de 12,5% integra uma ação conduzida pelo Representante Comercial dos Estados Unidos contra 60 parceiros comerciais. O processo incluiu apresentação de conclusões preliminares, recebimento de manifestações e audiência pública antes da decisão final.
O governo norte-americano afirma que a medida pretende pressionar países a adotarem e aplicarem proibições mais eficazes contra a importação de bens produzidos com trabalho forçado. A tarifa foi definida em 10% para parte das economias investigadas e em 12,5% para as demais, com exceções para determinados produtos.
O governo brasileiro contesta a decisão. Em manifestação oficial, o Ministério do Desenvolvimento afirmou que o país possui legislação e políticas de combate ao trabalho forçado e que não considera justificadas as medidas unilaterais. Brasil e Estados Unidos realizaram reuniões de alto nível para discutir as relações comerciais antes da decisão definitiva.
Ainda não há comprovação de demissões ou contratos cancelados
Até 28 de julho de 2026, não foi localizado, nas fontes públicas examinadas, documento que relacione as novas tarifas a demissões, cancelamento de pedidos, redução de produção ou suspensão de investimentos em Campo Formoso, Jaguarari ou nos demais municípios do Piemonte Norte do Itapicuru.
Isso não significa que efeitos comerciais não possam ocorrer. As medidas são recentes, e possíveis alterações em pedidos, preços, produção e empregos podem demorar a aparecer nas estatísticas públicas.
Também não foram realizadas entrevistas diretas com empresas, produtores, cooperativas, sindicatos ou administrações municipais. Por isso, esta reportagem limita suas conclusões ao que está documentado em bases e publicações oficiais.
Por que isso importa?
Tarifas adicionais encarecem os produtos brasileiros quando eles entram no mercado dos Estados Unidos. Dependendo do contrato comercial, o custo pode ser absorvido pelo importador, dividido entre as partes ou usado para pressionar o exportador a reduzir o preço.
Empresas mais dependentes do mercado norte-americano podem enfrentar dificuldade para preservar margens e competitividade. Entre as possíveis respostas estão a renegociação de contratos, a busca por outros compradores e o redirecionamento das vendas para novos mercados.
Na cadeia do sisal, os efeitos podem alcançar não apenas as empresas exportadoras, mas também beneficiadoras, transportadores, cooperativas e produtores rurais. Na mineração, podem atingir fornecedores, prestadores de serviços e atividades vinculadas às operações industriais.
Esses efeitos são possibilidades econômicas e não devem ser apresentados como prejuízos já confirmados na região.
Impacto no Piemonte
Campo Formoso e Jaguarari são os municípios do Piemonte com sinais mais claros de exposição potencial.
Campo Formoso lidera a produção nacional de sisal, enquanto os Estados Unidos absorvem uma parcela importante das exportações brasileiras da fibra e de seus derivados. Essa combinação torna a cadeia regional sensível a mudanças de acesso ao mercado norte-americano.
Jaguarari, por sua vez, respondeu por 4,04% das exportações baianas acumuladas entre janeiro e abril de 2026. O dado demonstra a relevância exportadora do município, mas ainda não identifica quanto foi vendido aos Estados Unidos nem qual alíquota alcançou cada mercadoria.
Não foram encontrados elementos suficientes para apontar exposição direta de Andorinha, Antônio Gonçalves, Caldeirão Grande, Filadélfia, Pindobaçu, Ponto Novo e Senhor do Bonfim.
A ausência de dados municipais, porém, não exclui efeitos indiretos. Produtos originados nesses municípios podem ser beneficiados, comercializados ou exportados por empresas formalmente registradas em outras cidades.
A conclusão possível neste momento é que mineração e sisal devem ser monitorados, mas ainda não há comprovação pública de que produtos do Piemonte estejam pagando a alíquota acumulada de 37,5% ou de que as medidas já tenham causado perdas de contratos e empregos.