O episódio que começou dentro da Operação Compliance Zero, voltada à apuração de suspeitas de fraudes bilionárias ligadas ao antigo Banco Master, deixou de ser apenas um caso financeiro. Em poucos dias, passou a expor uma disputa institucional sobre quem pode investigar ministros do Supremo, qual é o limite de atuação de um relator, como a Polícia Federal produz informações para a Corte e até onde decisões monocráticas podem alcançar a direção de um órgão de Estado.
No centro dessa sequência está o ministro André Mendonça, relator de procedimentos ligados ao Banco Master. A partir do fim de agosto, decisões do ministro desencadearam reações da Procuradoria-Geral da República, de Alexandre de Moraes, de Flávio Dino, de Gilmar Mendes, de Cristiano Zanin, da Advocacia-Geral da União e do presidente do STF, Edson Fachin.
O Portal do Piemonte reconstrói abaixo a cronologia com base em decisões do STF, manifestações da PGR e informações oficiais publicadas até 12 de setembro de 2026. O objetivo é separar fatos comprovados, controvérsias jurídicas e acusações ainda pendentes de julgamento.
O ponto de partida: o celular de Daniel Vorcaro
A crise ganhou forma quando a Polícia Federal analisou dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e principal personagem da Operação Compliance Zero. O material continha referências a autoridades, empresários, integrantes do sistema de Justiça e políticos.
Entre os elementos divulgados apareceram mensagens atribuídas a Vorcaro para um contato identificado como ligado ao ministro Alexandre de Moraes. A investigação também alcançou referências ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e a outras autoridades. O conteúdo, por si só, não representa condenação nem conclusão de responsabilidade penal. O que provocou a crise foi a decisão sobre como esses elementos deveriam ser tratados dentro do STF.
Esse ponto é essencial porque, quando surge indício envolvendo magistrado, a legislação prevê tratamento específico. A discussão posterior passou justamente a girar em torno de saber se Mendonça poderia determinar novas diligências no processo que já estava sob sua relatoria ou se deveria primeiro submeter o avanço ao colegiado do Supremo.
1º de setembro: Mendonça retira o sigilo e a PGR reage
Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo de relatório da Polícia Federal que continha referências a Moraes e Gonet e determinou que a PGR se manifestasse sobre o conteúdo. A divulgação levou o caso, até então restrito aos autos, para o centro da agenda política nacional.
No mesmo dia, o procurador-geral Paulo Gonet apresentou uma reação jurídica forte. A PGR sustentou que Mendonça teria ultrapassado os limites da relatoria ao aprofundar a investigação em direção a outro ministro do STF sem autorização prévia do Plenário. Gonet pediu a nulidade dessa parte da apuração.
Essa pergunta é analisada em profundidade em outra reportagem desta série: André Mendonça podia investigar Moraes? LOMAN e precedente do STF entram no centro da disputa.
3 de setembro: Moraes leva acusações contra Mendonça a Fachin
A crise mudou de direção em 3 de setembro. Alexandre de Moraes tornou pública decisão baseada em relatórios de inteligência da Polícia Federal e encaminhou o material ao presidente do STF, Edson Fachin. Segundo Moraes, os documentos levantariam suspeitas sobre a condução de Mendonça em procedimentos relacionados às operações Compliance Zero e Sem Desconto.
As acusações mencionavam, entre outros pontos, possível direcionamento de investigações, abuso de autoridade e favorecimento político. Mendonça rejeitou a caracterização e passou a questionar a própria validade e origem dos relatórios usados contra ele.
Fachin então abriu a Petição 16.704 para concentrar a apuração institucional. O presidente do STF determinou que Moraes, Mendonça, Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, apresentassem esclarecimentos por escrito.
4 de setembro: Fachin retira os relatórios do Inquérito 4.781
No dia seguinte, 4 de setembro, Fachin adotou uma decisão relevante para o desenho do conflito. Determinou que a decisão de Moraes e os relatórios da PF fossem retirados do Inquérito 4.781 — o chamado Inquérito das Fake News — e juntados à Petição 16.704.
Na prática, a Presidência do STF separou a acusação contra Mendonça do inquérito que era conduzido pelo próprio Moraes. A medida buscou deslocar o conflito para um procedimento sob controle institucional da Presidência da Corte, com manifestação dos envolvidos e da Procuradoria-Geral da República.
Fachin também fez uma declaração pública naquele dia. Disse que a gravidade dos fatos não autorizava atalhos e que a resposta institucional deveria respeitar devido processo legal, contraditório e garantias constitucionais.
8 de setembro: Mendonça afasta a direção da Polícia Federal
O confronto atingiu outro patamar em 8 de setembro. Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada.
A decisão foi tomada após pedido formulado pelo Partido Novo. A legenda também pediu a prisão preventiva de Andrei, mas Mendonça não acolheu essa parte. O ministro justificou o afastamento com base na produção e no uso dos relatórios de inteligência que, segundo ele, teriam sido elaborados de forma irregular e configurariam monitoramento indevido de autoridades.
A medida teve impacto imediato na Polícia Federal. Diretores da corporação manifestaram apoio à chefia afastada, enquanto entidades representativas criticaram o fato de uma decisão de tamanha repercussão ter sido tomada monocraticamente.
Ao mesmo tempo, a Segunda Turma do STF formou maioria para manter a decisão de Mendonça, com votos antecipados de Luiz Fux e Nunes Marques. O julgamento, porém, foi interrompido por pedido de vista de Gilmar Mendes.
A AGU reage e leva a disputa à Presidência do STF
A Advocacia-Geral da União pediu a Fachin a suspensão do afastamento. A AGU sustentou que a decisão atingia uma prerrogativa constitucional do presidente da República relacionada ao provimento e à exoneração da direção da Polícia Federal.
Esse argumento adicionou outra camada ao caso: além de discutir investigação de ministros e funcionamento da PF, o Supremo passou a enfrentar uma disputa sobre se um ministro poderia afastar cautelarmente o diretor-geral de um órgão cuja chefia integra a esfera de competência do Poder Executivo.
9 de setembro: Dino reintegra; Fachin suspende as duas decisões
Na manhã de 9 de setembro, o ministro Flávio Dino determinou a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada. Dino apontou problemas processuais, incluindo a legitimidade do Partido Novo para requerer medidas cautelares em investigação criminal e a competência para decidir sobre os relatórios que já estavam sendo analisados por Fachin.
Horas depois, Fachin interveio. O presidente do STF suspendeu tanto a decisão de Mendonça, que afastava os dirigentes, quanto a de Dino, que os reintegrava. Também suspendeu o andamento da Petição 16.662 e convocou sessão extraordinária do Plenário.
A disputa é detalhada em Mendonça, Dino e Fachin: como a direção da PF virou centro de uma disputa dentro do STF.
Fachin retira Moraes da condução do Inquérito 4.781
Ainda em 9 de setembro, Fachin tomou outra decisão histórica. Por meio da Portaria 189, revogou a designação de Alexandre de Moraes para conduzir o Inquérito 4.781, função exercida por ele desde 2019.
O STF deixou claro que os atos regularmente praticados durante o período anterior foram preservados e que ações penais já abertas continuariam seu curso. Portanto, a decisão não significou anulação automática do inquérito nem das medidas tomadas por Moraes.
O significado institucional, porém, é grande: a Presidência encerrou uma relatoria que havia se tornado uma das mais poderosas e controversas da história recente da Corte justamente durante um conflito em que Moraes utilizara relatórios da PF contra outro ministro.
Veja a reportagem específica: Fachin retira Moraes da condução do Inquérito 4.781 após sete anos de relatoria.
11 de setembro: a disputa passa a ser também pelo sigilo
Depois das decisões sobre a PF e o Inquérito 4.781, a crise entrou em uma nova fase. Ministros e a PGR passaram a exigir acesso mais amplo aos documentos relacionados ao caso Master.
Fachin determinou que Mendonça ampliasse a publicidade dos procedimentos. A PGR afirmou que a abertura parcial poderia transmitir uma percepção de falta de transparência. Moraes acusou o relator de fazer uma seleção do que seria divulgado.
Mendonça respondeu dizendo ter disponibilizado integralmente os procedimentos relacionados ao julgamento, preservando apenas informações ligadas a diligências em andamento, dados pessoais e material protegido por sigilo legal.
Na noite de 11 de setembro, o ministro levantou o sigilo de mais 39 processos. Entre eles estavam procedimentos que envolvem personagens de campos políticos diferentes, incluindo investigações relacionadas ao filme Dark Horse, ao senador Flávio Bolsonaro, a Eduardo Bolsonaro, a Ciro Nogueira e a Jaques Wagner.
Isso mostrou que o universo da Compliance Zero é muito mais amplo do que a disputa entre Mendonça e Moraes. Também reforçou a importância de distinguir quem é investigado, quem é apenas citado e quem já foi formalmente acusado.
12 de setembro: ministros e PGR cobram acesso integral ao celular de Vorcaro
Em 12 de setembro, a discussão avançou novamente. A PGR reiterou pedido para que todos os ministros tenham acesso integral aos documentos do caso Master. Gilmar Mendes e Cristiano Zanin também defenderam acesso aos dados completos extraídos do celular de Vorcaro.
O argumento central é de colegialidade: se o Plenário terá de decidir sobre possível investigação envolvendo um de seus próprios integrantes, todos os ministros deveriam examinar o mesmo conjunto de informações, e não apenas trechos selecionados.
Essa disputa tornou o acesso à prova uma questão institucional própria. O problema já não é apenas o que o celular de Vorcaro contém, mas também quem pode ver o conteúdo, quem decide o que permanece sob sigilo e quais informações podem fundamentar o julgamento.
Aprofundamos esse ponto em Sigilo ou seletividade? A disputa pelos documentos do Banco Master chega ao centro do STF.
O que o STF vai decidir em 15 e 23 de setembro
Fachin decidiu manter separados os dois eixos da crise. A sessão extraordinária de 15 de setembro ficou destinada à análise do caso envolvendo Moraes e as informações extraídas da investigação do Banco Master. Já as acusações contra André Mendonça foram reservadas para uma sessão em 23 de setembro.
A separação é importante porque impede que duas controvérsias com estágios processuais diferentes sejam julgadas como se fossem um único caso. Ao mesmo tempo, significa que o STF terá de enfrentar, em poucos dias, duas perguntas delicadas sobre sua própria estrutura de poder e controle interno.
Por que este episódio é institucionalmente relevante
O caso reúne, ao mesmo tempo, cinco temas sensíveis: prerrogativa de foro, poder de relatores, atuação da Polícia Federal, limites das decisões monocráticas e mecanismos internos para investigar ministros do Supremo.
Não existe, até agora, uma conclusão judicial definitiva de que Moraes ou Mendonça tenham cometido os ilícitos atribuídos a eles. Existem documentos, acusações, contestações e decisões que ainda serão examinados pelo colegiado.
O aspecto histórico está justamente aí: o STF passou a ter de aplicar sobre seus próprios integrantes regras de devido processo, competência e controle institucional que normalmente interpreta para todo o restante do sistema de Justiça.
Fontes e documentos consultados
- STF — abertura da Petição 16.704, em 3 de setembro
- STF — providências de Fachin em 4 de setembro
- STF — Nota à Imprensa de 9 de setembro
- Agência Brasil — cobertura das decisões de Mendonça, Dino, Fachin e das manifestações da AGU e PGR.